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28/11/2011

"O Melhor pra Mim"


Capitulo 6

Segunda-feira, dia 2 de Novembro, 14:12, casa.
Lua:
- Lua, sua mãe ligou. – fui recebida pela péssima notícia assim que pisei meus pézinhos cansados em casa. Clara minha madrasta, estava jogada no chão, jogando o X-Box do meu pai e tomando uma cerveja, quando me jogou a bomba.
- Tem certeza? – perguntei, jogando-me ao seu lado e observando-a acertar todas as notas de alguma música desconhecida – ela estava com fones no ouvido – no Guitar Hero. – Pode ter sido seu agente de viagens avisando que ela comprou uma passagem só de ida pra Terra do Nunca!
- Hum-hum. – ela negou, concentrada em seu solo de guitarra, com o controle apoiado na montanha de pele que se concentrava em sua barriga. Ela estava grávida – “prenha”, como meu pai gostava de brincar – de 8 meses e não podia mais voltar ao estúdio onde trabalhava de produtora para muitas bandas legais, como o The Kooks, e a falta de barulho e guitarras estridentes em seu ouvido a fazia jogar Guitar Hero o dia inteiro.
- Clara você não pode beber! – eu exclamei, pegando a sua cerveja do chão e tomando um gole, quase cuspindo em seguida. – Sem álcool? Eca, melhor nada do que isso!
- É o que acontece quando você resolve carregar um bebê pra cima e pra baixo dentro das suas entranhas. – ela respondeu, sem tirar os olhos da televisão.
Fiquei observando-a jogar para tentar prolongar ao máximo à hora de ligar para minha mãe. Não estava preparada emocionalmente para ouvir tudo que ela tinha a dizer. O que, basicamente, envolvia minha falta de higiene com o cabelo e coisas do tipo.
Por isso que Clara era ótima. Nunca me enxia o saco e sempre me apoiava. Sem contar que tinha 39 anos, só que mentalmente tinha no máximo uns 16. Eu, sinceramente, não sabia o que ela havia visto em meu pai. Quero dizer, ela era toda piradinha, rock ‘n roll e feminista, enquanto meu pai era um quarentão – 46 anos pra ser mais exata – que se divertia lendo o jornal. Mas como ela mesma sempre dizia, o amor era cego e sem capacidade de diferenciar gostos e texturas.
Por outro lado, eu sabia exatamente o que meu pai havia visto nela. Além dos seus olhos azuis e seu cabelo negro como a noite e lisos como alguma coisa bem lisa – não consegui pensar em nada legal e liso porque estou com inveja demais do seu cabelo para encontrar adjetivos para ele –, ela fazia meu pai o cara mais feliz do mundo.
Meus pais haviam se casado muito cedo, porque minha mãe engravidou com 18 anos… Então, com 20 anos, lá estava meu pai, se responsabilizando por seus atos. Era de se esperar que o casamento não duraria muito, os dois eram muito novos e imaturos… Então, cinco anos depois, os dois assinaram os papéis do divórcio. Papai ficou arrasado. Eu era muito criança para entender, só sabia que algo estava errado.
Fui morar uns dois anos com minha mãe, mas quando ela se casou com Luciano, meu padrasto, pedi ao juíz para morar com meu pai. Mesmo com 7 anos eu entendia que ele precisava de mim e entendia que não poderia viver mais um dia naquela casa cheia de gente mesquinha. E, claro, minha inteligência além-de-pessoas-normais me ajudou a perceber isso. Então ficamos só nós dois por mais 5 anos. Ele melhorava aos poucos, mas eu me lembro de vê-lo chorar em seu quarto no começo. Ele ainda amava minha mãe quando os dois se separaram, mas ela estava ocupada demais tendo filhos idiotas com seu marido mais idiota ainda pra perceber isso.
Então, num fatídico dia – mais precisamente no meu aniversário de 12 anos –, ele conheceu Clara. Nós – eu, ele, Rayanna, Sophia e Mel – estávamos comemorando no Hard Rock Cafe quando os dois se trombaram. E meu pai só saiu da lá com o seu telefone anotado na mão. Seis meses mais tarde ela veio morar com a gente, e dois anos depois eles se casaram, e eu posso dizer, com sinceridade, que a única vez que eu me senti desconfortável com aquele relacionamente foi quando tive que usar um vestido horrendo de dama com o aspecto de um saco de batatas.
Laranja.
Fora isso, ver meu pai mais feliz do que jamais vira era maravilhoso. E poder ter uma mulher em casa também. Não para conversar sobre roupas e coisas fúteis, mas para poder conversar sobre coisas que só mulheres entendiam, como… Bom, não consigo me lembrar de nada agora.
Só sei que Clara era ótima.
E papai sabia disso.
- Bom, hora de lavar o rinoceronte! – Clara exclamou, referindo-se ao fato de ela estar indo tomar banho. Olhei no relógio, e já haviam se passado duas horas desde que eu chegara ali. – Me dá uma ajuda, Lu?
Levantei-me e a puxei. Mais alguns dias e ela só levantariam dali com um guindaste. Ela estava enorme e seus pés inchados, e não havia nada de beleza de mulher grávida nela. Só mau-humor e comida sempre faltando em casa.
Ela comia tudo.
Fomos juntas pela escada e ela entrou em seu quarto. Dei mais alguns passos e entrei no meu. Joguei-me na minha cama, pegando meu telefone de Mestre Yoda e disquei o temido número. Ele tocou algumas vezes e caiu na secretária eletrônica.
- Alô, mãe? É a Lua, sua filha… Mas é claro que você sabe que é sua filha, você só tem uma… – eu sempre me sentia estúpida deixando aquelas mensagens. Secretária idiota. – Então, estou ligado pra…
- Lua? – ouvi a voz sonolenta de Luciano do outro lado.
- Oi. – respondi, trocando o telefone de orelha. – Minha mãe tá aí?
- Sim, só um minuto. – “Adrianaaaaaaaaaaaaaaa? Sua filha!” ouvi ele berrar, e afastei um pouco o telefone da orelha. Dois segundos depois, ela estava na linha.
- Pode desligar, Luciano– ela ordenou, e ele obedeceu, como um cachorrinho domesticado. – Lua, finalmente!
- Oi, mãe. – eu disse, roendo as unhas, porque subconscientemente eu sabia que ela odiava que eu roesse as unhas. – Me ligou?
- Sim, te liguei… Sua madrasta não te avisou? – ela perguntou. Ela nunca dizia o nome de Calara. Era só “sua madrasta” ou “ela”. Nunca Clara.
- Sim, se não tivesse me avisado eu não estaria ligando. – respondi, tentando não ser muito irônica. Ela odiava ironias. Mais do que unhas roídas.
- Só liguei para perguntar se está tudo pronto para minha visita. – ela disse. – Você não espera que eu vá dormir em um hotel, espera?
- Não, mamãe, não espero. – suspirei, repentinamente cansada. – Está tudo pronto. Quarto de hóspedes limpo e toda essas frescuras.
- Ótimo. Então podemos conversar sobre outras coisinhas. – ela disse, e eu apertei o telefone contra o ouvido. – Você andou fazendo o que eu te pedi pra fazer?
Bom, depende do que ela queria dizer com “andou fazendo”. Andei pensando em fazer, mas fazer mesmo, não.
Mas é claro que eu não disse isso em voz alta.
Eu ainda queria ganhar meu carro.
- Sim, mais ou menos… Você sabe que não é a coisa mais fácil do mundo arranjar um namorado, não é, mãe? Ainda mais quando não se é loira e peituda. – olhei para baixo. Meus peitos eram normais, nem grandes nem pequenos, mas estavam – e quase sempre ficavam – devidamente escondidos embaixo do meu blusão da Hurley.
- Eu já disse que você ficaria linda loira, você que não quer me ouvir… – ela suspirou. – Mas trate logo de arrumar um, não quero passar a vergonha de ter que explicar às minhas amigas que minha filha de quase 18 anos nunca teve um namorado!
- Sim, mãe…
- E faça alguma coisa com esse cabelo, Lua! Ontem eu entrei na sua página do MySpace pra ver suas fotos e vi que você continua com esse frizz ai noseu lindo cabelinho ! Por favor, isso não parece um cabelo, é sim um pedaço de tecido costurado na sua cabeça!
- Sim, mãe…
- Agora eu preciso ir, Caio tem jogo de futebol e eu preciso levá-lo.
- Sim, mãe…
- Beijos, e não se esqueça de arranjar um namorado até no máximo esse fim de semana pra você poder levá-lo no baile de inverno, daqui 16 dias. Se não, adeus carro novo!
- Sim, mãe.
Então ela desligou.
O que eu iria fazer???
Continua...


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